Graveyard full of virgins.
A Igreja Católica, assim como qualquer outra organização cujo poder reside na quantidade de adeptos e na influência que a instituição exerce sobre eles, sempre contou com elementos para manter unidas e controladas suas massas de fiéis e, assim, manter sua subsistência. Um desses elementos é, certamente, o conceito de “missão divina”. Ao homem é muito atraente imaginar que veio ao mundo por um motivo; que Deus tem uma missão para todos nós, embora muitas vezes esta não nos fique clara.
Com o desenvolvimento intelectual dos últimos séculos, cresceu no homem a necessidade de sentir-se útil, e, seja na luta contra as forças do karma ou na busca por sua verdadeira missão na Terra – bem como na necessidade que sentem muitos dos intelectuais e artistas de deixar um legado – encontra-se uma oportunidade de suprir essa necessidade. No século XIX, somou-se uma nova força a esta tão bem sucedida estratégia de manipulação: a ideia de grandeza crescente nos ideais românticos, fortalecida pelo conceito do “gênio”, do “homem à frente de seu tempo”.
Um bom exemplo é o de Ludwig van Beethoven. Durante o classicismo, os músicos eram considerados apenas mais um serviçal da corte, não mais importante do que o cozinheiro ou o cocheiro, e simplesmente se conformavam com isso: sua missão, seu objetivo na vida, era servir aos propósitos de seus senhores. Beethoven, porém, influenciado pelo romantismo alemão, chocou-se contra essa ideia, elevando a si próprio à posição de gênio; um homem à frente de seu tempo, cuja mente a plebe, os intelectualmente menos favorecidos, jamais seriam capazes de compreender; favorecido por Deus com um talento sobrenatural. Beethoven implantou grandeza em sua missão; dedicava suas músicas a um público ainda não nascido, um utópico público culto, que enfim compreenderia verdadeiramente suas obras.
O mesmo se dá na obra de Nietzsche. Em seu Antichrist ele afirma que seus verdadeiros leitores, os espíritos livres, aqueles que pensarão como ele e compreenderão suas palavras com totalidade, ainda não haviam nascido.
Sendo assim, foi implantada em diversas culturas, por diferentes vias, a ideia de que nossas vidas não acontecem à toa. De que todos nós servimos a um propósito. Um pequeno agrado ao ego, a quem é cedida essa noção de importância, para que, em troca, o indivíduo busque encaixar-se aos moldes da sociedade, ou de sua religião, para cumprir essa importância e, por fim, reafirmar a valorização do ego. Convenientemente, esse propósito não nos é imposto, nós é que devemos encontrá-lo.
Esse processo apresenta uma característica curiosa, principalmente no caso da religião, pois, uma das maiores necessidades desta para continuar existindo, é reprimir a idiossincrasia. Uma rápida observação mostra que os fiéis, salvo raras exceções, seguem um padrão de comportamento que os caracteriza como integrantes deste ou daquele grupo. Ao mesmo tempo, um dos artifícios utilizados para manipular esses fiéis é de apelo narcísico, individual. Isso acontece porque, apesar da supressão da individualidade, a permanência do crente no grupo religioso depende de um elo criado entre o indivíduo e o restante do grupo, e são formas funcionais de gerar esse elo a identificação com outros fiéis, ou com elementos da doutrina pregada, e a sensação de débito para com o divino e/ou com o grupo.
A ideia de que Deus tem uma missão para cada um de nós gera no indivíduo uma sensação de conexão com o mundo ao seu redor, uma relação entre ele e o mundo. Ligação essa que remete, talvez, à primeira infância, quando se formava o ego. À medida que acontecem coisas que trazem desprazer à criança, ela começa a tomar consciência de si própria como diferente do mundo que a cerca, e este é um processo doloroso. A “missão divina” devolve, em partes, esse sentimento de universalidade, esse sentimento oceânico, o que a torna atraente.
Esse processo, bem como o processo meramente cultural popularizado no romantismo alemão, ocorre tão naturalmente que já gerou no homem a ilusão de que a sua vida precisa de um significado que transcenda a nossa essência original, de comer, foder e dormir – e que muitas vezes nos pede para renegar uma dessas atividades – o que faz com que tenhamos a impressão de que temos um débito para com a sociedade, ou com a humanidade, ou nosso grupo religioso, quando na verdade essa sensação não passa de um mero narcisismo. Além disso, ao aceitar seu papel no universo, como veículo da vontade de Deus (apesar do livre arbítrio), ao sentir-se como mais uma engrenagem num todo universo, e tendo esse tão prazeroso sentimento oceânico, o homem se sente completo e, mais, em débito para com Deus e com a instituição religiosa, que o proporcionaram isso. Além disso, sente-se em débito, também, pela ideia de que tem um dever a cumprir para com o todo do qual ele agora é parte. Uma empatia megalomaníaca. A partir daí, dentro da instituição, ocorre a identificação do indivíduo com outros, também no mesmo estado de completude exasperada e de abdicação de instintos, o que une, então, a massa que sustentará a instituição.